08/12/2011

UM ANJO IMPULSIVO PRECISOU VIVER POR AQUI

E hoje completam 31 anos da morte de John Lennon... God bless you, John! Onde quer que esteja.

Longe de Lennon ter sido um anjo, na acepção religiosa da palavra. Um anjo. Quá! Mas daí haver malucos que o relacionem a um tratado com o coisa-ruim é de doer. Vejam só: Dizem que, durante um porre ou embalado numa viagem movida a drogas no início dos sixties, John teria vendido a alma ao rei do enxofre em troca de sucesso. Ouch! Será que se fosse tão fácil assim fazer um trato dessa natureza com o "capa", no torpor de uma carraspana ou mesmo no auge de uma viagem in the sky with Lucy, o inferno não estaria mais cheio do que o Japão, onde um zapon tropeça no centro da ilha e caem dois no mar lá embaixo? Ok, o inferno está cheio, mas cheio de gente que fez coisas terríveis e que em nada contribuiu para a paz, o amor e a fraternidade entre a humanidade. John foi uma pessoa assim? E quanto a Paul, Ringo e George? Eram medíocres? Eles, partes importantíssimas de um conjunto que ainda rompe barreiras de todos os tipos, compartilharam do sucesso sem "pagarem" nada? Ora, convenhamos...

Bom, mas um anjo precisa ter certos atributos. É... E John tinha. Mais ou menos como naquele filme em que outro John, o Travolta, interpreta um anjo fumante, meio que indolente, largadão, porém muito cool. Lennon lembra, de longinho mas lembra, um anjo assim. A fuck rebel angel. Como se Deus (que Lennon denominava de "O Usina De Força") tivesse dito: "Vá! Sofra, dê umas porradas também, erre, construa coisas incríveis e depois suba logo. Devo precisar de você aqui em cima. O bem não é feito só com olhinhos meigos." Imagine!

E John veio para a Terra e viveu, sob o signo da pressa e equipado com olhos e mente flamejantes. A real flaming eyes, cantando "Mind Games".

Meninote, viu o pai Fred rumando para o mar e quase foi junto. Abraçou-o, hesitou, mas atravessou a rua e ficou com a mãe Julia. Julia, a quem perdeu por duas vezes - primeiro porque ela foi morar com outro homem e a família achava um escândalo e mau exemplo pro garoto; segundo quando ele e a mãe estavam se reconciliando e retornariam a morar juntos (ela até o havia ensinado algumas música no banjo), e um policial bêbado rompe o sonho, a atropela e a mata. John, posteriormente, externou um coração arrebentado por essa perda em duas músicas: "Julia" - White Album e "My Mummy Is Dead" - Plastic Ono Band. Claro que ele fez "Mother", mas aí ele gritava pelos dois, Fred e Julia, sob orientação de Arthur Janov, um psicólogo que estava em evidência.

Quanto ao marido de Mimi, os dois eram muito apegados. Afinal o Tio George foi a única figura paterna estável que John teve na vida, mas que morreu repentinamente quando John tinha 12 anos e voltava para casa, depois de umas férias na Escócia. Na oportunidade John trazia um presentinho para a Tia Mimi e outro para o Tio George. Segundo Mimi, ao saber da morte, John fechou-se como uma concha e não falou mais do tio, porém quando ia para a escola de arte usava sempre um velho blazer, apertado e curto, que pertencera a ele.

Apressado e como que montado na velocidade estonteante dos fatos, que invariavelmente o pegavam de surpresa - como se o seu tempo fosse multiplicado por três ou quatro do tempo normal dos outros - perde o amigo Stu, de apenas 21 anos, para um derrame cerebral. Stuart Sutcliff fora o primeiro baixista do grupo, que já contava com Paul McCartney, George Harrison e Pete Best - Ringo Starr (Richard Starkey) só chegaria para os Beatles com a saída de Pete em 1962.

Nessa época, aos 21 anos também, as drogas já eram o seu lenitivo. Barbitúricos, álcool... Tudo para suportar as dores dos abandonos e para continuar dando o recado nas temporadas malucas em Hamburgo, Alemanha. É claro que todos estavam na onda, mas John tinha bem mais motivos para exageros.

Depois, de volta à Liverpool e iniciando o mito do Cavern Club, um empresário, Brian Epstein, dá ao conjunto o primeiro selo. Com uma namorada, Cynthia Powell, tem o primeiro filho, John Charles Julian Lennon, o Julian, que nasce em 1963.

- Cacete! Que pressa, John! - Como um atordoado bad anjo, ele grita: "Help!".

Tudo muito rápido, tudo acontecendo num turbilhão de fatos encadeados. E Cynthia querendo fazer do marido um perfeito "homem inglês", de chinelos, robe e cachimbo... Aqui eclode um John angustiado, impedido e se impedindo de acompanhar eventos e participar de diversas farras, que coloriam o cenário daqueles anos incríveis. Compôs "I'm Only Sleeping".

- Merda! Como abandonar a família? Repetir com Julian aquilo que seus pais fizeram com ele?

Ao voltar de Rishikesh, Índia, na viagem com os Beatles em 1968 - e após a morte (mais uma de alguém próximo) do empresário Brian, por excesso de tranquilizantes -, teria dito para Cynthia: "Vamos voltar a ser uma família, Cyn. Eu, você e Julian!", mas as drogas e a insatisfação acabaram falando mais forte. No seu armário, na residência de Kenwood, Londres, lia-se: "Safe As Milk".

John ainda gritou "I'm So Tired" e mais tarde, com Yoko, declamou "Watching The Wheels" onde, a exemplo de "I'm Only Sleeping", já tinha dito que não estava nem aí para aqueles que o achavam preguiçoso. Talvez nessa afirmação repetida ele tenha tentado dizer ao mundo que, mesmo supostamente parado, a sua efervescência intelectual, artística e humana estavam sempre no ápice. Como pode alguém, elétrico como Lennon, ficar cinco anos praticamente fora de cena e exatamente, exatamente no ano em volta a compor e, com toda a certeza, a preparar seu retorno ao panorama político e contestador, além do artístico, à evidência mundial, simplesmente ser morto por um suposto débil-mental?...

E foi morto no país e na cidade que tanto amava, cujo governo tentou extraditá-lo várias vezes. Sua briga com Richard Nixon, presidente americano naquele período, foi célebre. E foi morto cantando "I'm Losing You", onde ouve-se: "Eu ainda tenho que carregar a cruz?" E foi morto deixando uma enigmática frase na contra-capa do seu Long Play de 1972 - Some Time In New York City -, que soou mais misteriosa ainda depois de revelado o envolvimento de uma grande empresa americana com o nazismo durante a segunda guerra, que dizia "Don´t think they didn´t know about Hitler"...

Poucos homens públicos tiveram a coragem de expor o peito como John. Raros homens atraíram tanta atenção e admiração nas diversas culturas e nos tantos credos como John. Poucos homens amaram a humanidade como John. Acredito que até hoje ainda há babacas dormentes tentando entender suas incríveis sacadas.

Yoko deveria ter levado suas cinzas para Liverpool. Será que ela nunca ouviu John cantar "Strawberry Fields Forever"?